Um dossiê elaborado por Iná Odara Cholodoski e Macaia Ferro, com auxílio de Renato de Maria e Sol Heringer, traça um panorama sobre a presença de listas T&NB — mecanismos de ingresso e política de acolhimento voltados a pessoas trans e não-binárias — em festivais brasileiros de 2025. O trabalho documenta avanços, desigualdades regionais e a dimensão ainda restrita dessa prática no circuito de eventos do país.
Origem e propósito das listas
As chamadas listas T&NB nasceram em 2015, no Recife, por iniciativa de quatro amigas travestis: Ana Flor Fernandes, Ana Giselle, Maria Clara Araújo e Mayara Cajueiro. Originalmente presentes em eventos ligados à música eletrônica, à cena underground e a espaços de dissidência de gênero e sexualidade, essas listas passaram a ser entendidas como práticas autogestionadas de cuidado, destinadas a reduzir barreiras de acesso que vão de dificuldades econômicas a episódios de violência, constrangimento e exclusão.
Alcance e números
O dossiê, intitulado Listas Trans – Um Panorama dos Festivais Brasileiros de 2025, mapeou 36 festivais que adotaram alguma forma de lista T&NB naquele ano. Em comparação com o total de eventos registrados no levantamento do Mapa dos Festivais — 366 no país em 2025 — isso representa participação em menos de 10% dos festivais. A pesquisa observa, porém, que o número de eventos com listas dobrou em relação a 2024, quando a presença ficou abaixo de 5%.
Quando o recorte considera apenas festivais pagos, um universo de 304 eventos, a proporção sobe para 11,9%. Ainda segundo o dossiê, no conjunto das iniciativas mapeadas foram ofertados mais de 6.800 ingressos e cortesias destinados a pessoas trans e não-binárias naquele ano.
| Festival | Local | Ingressos/cortesias (2025) |
|---|---|---|
| Castro | SP | 1.000 |
| Psica | PA | 760 (passaportes) |
| Mamba Negra | SP | 582 |
| Sensacional | MG | 500 |
| Coquetel Molotov | PE | 400 |
Distribuição geográfica e presença em grandes circuitos
O levantamento aponta que o Sudeste concentra o maior número de listas, ainda que Norte e Nordeste sejam as regiões que absorvem mais público nas iniciativas avaliadas. As listas, que começaram em espaços menores, já aparecem em festivais pertencentes a grandes produtores e redes, como T4F e Rock World, e em eventos que ampliaram a adoção em 2024, citados no dossiê como Popload, Turá e The Town.
Além disso, o panorama identifica a presença de listas em eventos realizados em diferentes estados e contextos, entre eles Nômade (SP), Festival de Inverno do Rio (RJ), Akará (SC) e o Afropunk Experience (MA) — este último destacado como a primeira edição do formato no Maranhão.
Impactos e desafios
Para os autores, as listas configuram práticas de acolhimento que reduzem barreiras de acesso em um setor marcado por desigualdades e por frequentes situações de violência e exclusão contra pessoas trans e não-binárias. Ainda assim, o avanço permanecerá limitado enquanto a adoção não se ampliar para uma parcela maior dos eventos. Entre as questões em aberto estão a padronização das políticas de inclusão, o acompanhamento do impacto das listas sobre a participação efetiva do público e a articulação com produtores e circuitos comerciais para garantir continuidade.
- 36 festivais com listas T&NB mapeados em 2025.
- Mais de 6.800 ingressos e cortesias oferecidos para pessoas trans e não-binárias.
- Presença ainda minoritária: menos de 10% dos 366 festivais nacionais em 2025.
O dossiê reforça que as listas são fruto de iniciativas comunitárias de cuidado que começam em cenas locais e, gradualmente, ganham espaço em eventos de maior visibilidade. A pesquisa serve como registro do movimento e como base para debates sobre como transformar práticas pontuais em políticas mais abrangentes de inclusão no mercado de entretenimento.