Associações do concelho do Funchal que prestam apoio a pessoas com perturbações de saúde mental, dependências e processos de inclusão social alertaram esta terça-feira para a falta de recursos humanos e materiais que condiciona a resposta a quem mais precisa. As declarações foram feitas no âmbito do I Encontro do Associativismo do Social e Saúde, promovido pela Câmara Municipal do Funchal.
Capacidade limitada perante uma procura crescente
Representantes das instituições presentes revelaram que, apesar de prestarem um trabalho diversificado — que vai do acompanhamento online a internamentos, passando por projetos de mediação cultural e por programas com reclusos — actuam com «respostas bastante limitadas», dependentes de apoio público e de donativos pontuais.
Rubina Sequeira, presidente da Associação Regressar a Si, disse que a organização presta acompanhamento online, apoios a internamentos e assistência presencial a reclusos, mas que tudo isso acontece num contexto de recursos escassos. A associação acompanha presencialmente 18 reclusos e estima que na região haja cerca de 5.000 pessoas com perturbação de uso de substâncias grave sem apoio adequado.
«Nós vamos fazendo aquilo que podemos com o dinheiro que dão».
Também a associação Casa Invisível ressaltou dificuldades em fixar recursos humanos. O projeto Trégua, apoiado pela Câmara do Funchal desde 2023, desenvolve competências artísticas junto de reclusos e conta com cerca de 50 participantes, segundo a responsável citada no encontro. A associação destacou ainda outros projetos de mediação cultural e artística que complementam a intervenção social.
Serviços quase no limite, resposta comunitária ameaçada
Paulo Nóbrega, da Associação de Familiares e Amigos do Doente Mental, informou que aquela instituição presta apoio a aproximadamente 50 utentes, entre residentes e frequentadores do centro ocupacional, e que tem notado um acréscimo de pedidos por parte da população. O aumento da procura coloca pressão adicional sobre equipas já reduzidas e sobre infra‑estruturas com capacidade limitada.
Os responsáveis sublinharam que o trabalho desenvolvido por estas entidades tem um papel complementar e, por vezes, substitutivo ao sistema público de saúde e ação social. No entanto, a sustentabilidade desses projetos depende em grande medida de financiamento público regular e de voluntariado e donativos privados, que não garantem sempre continuidade e escala de intervenção.
- Regressar a Si: apoio online, internamentos e acompanhamento presencial a 18 reclusos; estima ~5.000 pessoas com consumo problemático sem apoio.
- Casa Invisível: projeto Trégua com cerca de 50 participantes; desafios na fixação de recursos humanos.
- Associação de Familiares e Amigos do Doente Mental: apoio a cerca de 50 utentes entre residentes e centro ocupacional; aumento da procura.
Contexto e consequências locais
O alerta lançado por estas associações ocorre num momento em que as necessidades sociais relacionadas com saúde mental e dependências continuam a ganhar visibilidade. Para habitantes do Funchal, isso significa que parte da resposta fica a cargo de estruturas do terceiro setor que operam em condições de escassez, o que pode resultar em tempos de espera mais longos, cobertura parcial e maior pressão sobre os recursos familiares.
Do ponto de vista municipal e regional, a situação coloca desafios à coordenação entre instituições públicas e organizações não governamentais. A continuidade de projetos como o Trégua, que junta atividades artísticas e processos de reinserção, depende de contratos, subvenções e apoios logísticos que têm de ser assegurados para manter face às crescentes necessidades.
Os interlocutores presentes no encontro apelaram a uma revisão das formas de financiamento e a políticas que favoreçam a fixação de profissionais qualificados no sector social e de saúde mental. Sem medidas que reforcem a capacidade operacional, alertaram, as associações continuarão a operar «com aquilo que podem», deixando de fora parcelas significativas da população em risco.
O I Encontro do Associativismo do Social e Saúde organizado pela Câmara Municipal do Funchal trouxe estas questões para a agenda pública local, num convite explícito ao diálogo entre poderes públicos, setor social e comunidade para encontrar soluções sustentáveis.